Desgaste dos polos tradicionais, engajamento eleitoral jovem e velocidade da informação transformam a política em terreno instável.
O Brasil atravessa uma fase de desgaste profundo de seus principais polos políticos. O cansaço com Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro, visível nas ruas e refletido em dados eleitorais recentes, revela um país que já não encontra respostas na polarização que dominou a última década. A fragmentação da direita, o desencanto da esquerda e a rejeição crescente dos jovens aos modelos tradicionais de liderança colocam em xeque toda a estrutura política vigente.
Juventude: voto em alta, vínculo partidário em queda

O eleitorado jovem brasileiro vive uma contradição marcante. Entre 2018 e 2022, o comparecimento de jovens de 16 e 17 anos nas urnas subiu 52,3%, segundo dados oficiais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Em 2022, mais de 2 milhões de jovens entre 16 e 18 anos solicitaram pela primeira vez o título de eleitor.
Apesar desse crescimento do interesse eleitoral, a filiação partidária entre jovens mostra tendência oposta. Segundo dados de 2023, apenas cerca de 1% dos eleitores até 24 anos está filiado a um partido — em números absolutos, pouco mais de 170 mil jovens.
Essa dicotomia — maior presença nas urnas, quase ausência de vínculo institucional — demonstra que os jovens querem exercer sua voz nas eleições, mas não se reconhecem nas estruturas partidárias tradicionais. É um sinal claro de descrédito das instituições políticas e de busca por outro tipo de representatividade.
Desgaste dos polos tradicionais
Do lado da direita, a figura de Jair Bolsonaro perdeu força. Promessas repetidas e conflitos sucessivos corroeram seu apoio, e muitos apoiadores antigos se distanciaram. A base conservadora busca alternativas — mas encontra resistência de um público jovem que não se identifica com discursos repetidos e com um estilo político marcado por confrontos.
Na esquerda, Lula enfrenta críticas internas. Especialmente entre jovens progressistas, há frustração com a lentidão de reformas, com alianças vistas como pragmáticas demais e com decisões que parecem desconectadas das urgências contemporâneas, como meio ambiente, tecnologia, justiça social e mobilidade. Para eles, a política institucional soa como algo velho, burocrático, distante de sua realidade e suas expectativas.

Ambos os polos sofrem com desgaste de imagem, falta de renovação efetiva e crescente descrédito entre quem poderia ser sua base mais sólida: a juventude.
Informação em tempo real: arma e diagnóstico
A intensidade das redes sociais, dos smartphones e da internet transformou a política em um jogo de respostas imediatas. Na era da informação instantânea, qualquer incoerência, contradição ou falha na comunicação é exposta — e julgada — quase em tempo real. Essa nova dinâmica aumentou a exigência por coerência e transparência por parte das lideranças.

Estudos recentes apontam que jovens com engajamento político online têm maior propensão a participar de eleições do que aqueles sem esse engajamento. Isso reforça a ideia de que a internet não apenas informa, mas mobiliza, politiza e expõe velhos acordos, velhas práticas, velhas estruturas.
Com o aumento de jovens eleitoras e eleitores nas últimas eleições e a queda simultânea da filiação partidária, o sistema tradicional de política institucional se mostra cada vez mais vulnerável à crítica, à pressão pública e à renovação por métodos fora dos canais clássicos.
Caminho incerto: renovação ou crise
Com a base eleitoral jovem crescendo, mas sem vínculo com partidos, e com os polos tradicionais perdendo legitimidade, o Brasil se encontra em um momento de inflexão. A política que valerá nos próximos anos não poderá mais depender apenas de estruturas antigas, de promessas vazias ou de polarizações eternas.
Há duas possibilidades:
• O surgimento de novas lideranças — mais conectadas com a geração digital, com os anseios sociais, com a urgência de reformas reais e com uma forma de fazer política mais transparente e responsiva.
• Ou o aprofundamento da crise de representatividade, com abstencionismo crescente, descrédito institucional, perda de confiança e consolidação de movimentos radicais ou desengajados.
Para analistas e cientistas sociais, este é um ponto de inflexão. A juventude não rejeita a democracia — rejeita a inércia, a manipulação, o vazio de conteúdo e os conflitos estéreis que não resultam em mudanças reais. Ela exige protagonismo, participação real e voz própria. E, ao que tudo indica, ela já tem as ferramentas certas: voto, internet e consciência crítica.
Se a política brasileira quiser sobreviver a essa onda, precisará se adaptar. E rápido.
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